“Amor não teme o tempo; muito embora seu alfange não poupe a mocidade. Amor não se transforma de hora em hora.
Antes, se afirma na eternidade”.
William Shakespeare
William Shakespeare
Dei mais uma pausa no passado porque no presente diante de mim, Vinicius reagira estranho mais uma vez à palavra ‘imortais’.
Algo havia por trás daquela palavra, e por trás daquela reação.
- E quanto tempo durou esse casamento de fachada? – perguntou em tom de ironia quebrando meus pensamentos.
Eu o olhei, indignada. Não era a imagem que queria passar, não foi ‘fachada’.
- O que você chama de brincadeira durou cinco séculos. – falei com um tom de voz um pouco alto demais – Não foi fingimento ou algo assim.
- O tempo não significa nada – retrucou – Ainda mais, quando se tem a eternidade.
Eu não entendia o porque daquele debate ter começado. Não entendia porque ele ficara tão rapidamente bravo e sério.
- Desculpe-me – falou e eu bufei – Só falei o que penso.
Eu não respondi.
- E atrapalhei você. – continuou – Mas antes de responder a sua pergunta, preciso que termine e fale do tempo que passou no Brasil. Como chegou a vir aqui? Se estava tão bem lá...?
Ao mesmo tempo em que falara do Brasil, vi um brilho em seus olhos. Algo me fez pensar que era a parte de seu maior interesse, mas, antes, ele precisava ouvir um pouco mais do que se passara na gelada Nova York.
- Eu não podia o deixar e nem ao menos cogitava tal hipótese. – confessei continuando de onde parei – Primeiro, porque precisava dele. Todos falavam inglês e não acharia alguém que falasse tão bem alemão como Lestat. Segundo, eu só tinha a ele. Quem mais entenderia uma mulher metade animal a não ser seu próprio criador? “E por último, a coisa mais importante era que eu era viciada nele. É. Viciada é uma boa palavra pra descrever o que sentia. Eu daria minha vida por Lestat se eu a tivesse e ele conseguiu quebrar todas as definições que eu mesma criei um dia. Principalmente, a minha definição de liberdade: não ficar presa a ninguém nem a algum lugar. Mas eu ficava. Era impressionante como eu consegui por um tempo ficar sem caçar, me saciar só de Lestat. Toda noite, todo dia. Não conseguia controlar os desejos e ele nem ao menos tentava me ajudar com isso.”
- O que você chama de ‘viciada’ eu chamo de ‘apaixonada’. – falou Vinicius cabisbaixo.
- Talvez. - falei - Bem, eu nunca soube muito bem o que era o amor, então nem sei dizer ao certo...
- O que aconteceu naquela noite, depois do silêncio tenso, que você falou? – perguntou cortando-me.
Eu ri de leve. A resposta poderia parecer um pouco irônica.
- Lua de mel. – ri mais alto – Desculpe-me, mas é que sei que esperava outra coisa.
- É, você foi meio dramática, achei que estavam arrependidos. – falou ele com ironia.
- Talvez. – continuei com o tom de zombaria – Nós preferimos não falar sobre o assunto naquela noite, se é que me entende.
- Você sempre poupam palavras, seria bom se tentássemos essa teoria agora também
.- Uau. Me pareceu uma 'cantada indireta' – falei surpresa.
- Se essa é sua definição para o que falei, não vou discordar. – falou olhando-me nos olhos.
- É...você é bom. – respondi espontaneamente.
Num segundo, fiquei sem palavras. Continuei encarando-o tentando achar uma boa saída, mas não consegui.
- Desculpa, falei sem pensar.
- Te desculpar pelo elogio? – ele riu – Mas então, o que aconteceu para que viajasse ao Brasil? – perguntou por fim, quebrando o estranho...hm...clima.
- Bem, Louise aconteceu. - fiz uma careta.
- A esposa de Lestat? – perguntou ele instantaneamente – Bem, isso me faz lembrar que você é casada com ele, né...Só um pouco confuso.
Ri com a expressão de dúvida que ele fizera.
- Bem, pra começar, ou melhor, recomeçar, – ri – nós nem sempre saiamos juntos, principalmente pra caçar. Pra mim, era mais fácil homens, e pra ele, mulheres. Por isso também, não usávamos aliança. Mas isso nunca foi um problema, Lestat compensava a minha paranóia depois.
- Claro. Sempre. – Vinicius falou com ironia e me fez rir das lembranças.
- Bem, precisávamos sempre acabar mudando de um estado para outro, por conta das mortes e etc. Não queríamos ser descobertos. – fiquei um pouco mais séria – Sempre, ao voltarmos à Nova York, Lestat se encarregava de tirar as nossas malas do yellow cab* enquanto eu subia para cobertura, exausta. E assim o fizemos naquele dia de Dezembro, perto do Natal.
“Mas, havia algo, ou melhor, alguém de diferente o esperando no hall.
- Olá, quem é você? – perguntei com inglês fluente.
Nos últimos anos, não ficamos só no mel. Ele me ensinou também inglês e francês. Ensinou-me a dirigir, mas não usava muitos os meus conhecimentos automobilísticos. Ele fazia as honras de dirigir a Mercedes.
- Olá – falou a moça nervosa – Sou intercambista francesa, não sei falar inglês muito bem – nervosa e num inglês embolado, lembrando-me das primeiras aulas que tive.
Por um minuto fiquei preocupada que ela fosse alguma parente de Lestat que eu não conhecia. Mas era um medo absurdo após quinhentos anos. Então, falei para ela que não se preocupasse, em francês. Então, em seu idioma nativo disse que se chamava Louise Chevalier e que estava a procura do meu então marido, fato que ela parecia não saber.
Apesar de tudo, o sobrenome foi reconfortante, nada de Fontaine.
- Quer entrar, Louise? – falei convidando-a inocentemente.
Não sabia o que ela queria tratar com Lestat, mas não parecia algo bom. Eu não tinha ouvido dos lábios dele alguma coisa sobre a nova amiga francesa.
Ficamos em silêncio nos observando na sala de estar por alguns minutos e então Lestat abriu a maçaneta.
- Lestat! – pulou Louise do sofá para abraçá-lo. – Estava te esperando, eu tenho uma notícia maravilhosa!
Ele ficou tão confuso e surpreso que nem notara minha presença ou se quer respondia a reação da francesa.
- Estou grávida! – essa fala me fez levantar.
Antes de acusá-lo, sabia da impossibilidade daquela afirmação, o que doeu um pouco dentro de mim. Mas, se ela insinuara tal coisa, eu sabia bem o que tinha acontecido e o que ela era agora.
- Você não pode estar grávida! – falou Lestat desesperado – Claire?
Ele falou surpreso, enquanto eu dei as costas e subi as escadas para o quarto. Tinha passagens compradas para o Brasil e ia fazer uma surpresa a ele na manhã seguinte. É, eu ia. Depois da cena, as passagens passaram a ser uma boa saída.
- Claire! – falou repetidamente Lestat ao longo da escadaria tentando parar-me – Você tem que me ouvir! Você sabe que tem uma explicação!
Eu parei. Parei por ter ouvido aquilo tudo em alemão, parei por poder discutir a vontade e garantir privacidade as minhas palavras. Além de tudo, ele quis assim, o que mostrava um pouco de consideração. Consideração por mim que ele não teve no momento que dormiu com ela.
- Passou o tempo com a alemã aqui, Lestat. – falei o mais frio que pude referindo-me a nós dois – Tem uma francesa lá embaixo pra você.
- Não! Do que você está falando? - falou ele perturbado – O que vai fazer? Nós somos casados, não pode ir!
- Você não lembrou que éramos "casados" na hora, não foi? – retruquei – Me deseje boas férias no Brasil.
- Brasil? – ele falou assustado enquanto eu pegava as passagens – Não! Claire escute-me: você não pode ir ao Brasil! Não, não o Brasil! – ele falou segurando-me com as mãos.
- Lestat, você vai me deixar aqui? – falou Louise quebrando nosso diálogo no primeiro andar.
- Sabe, não gosto de triálogos ou triângulos. – falei soltando-me dele e correndo em direção a porta de saída para encontrar as malas prontas na porta do elevador.
- Claire! Claire! – Lestat insistia em me acompanhar – Ela estava... – até que Louise o parou. Era forte o suficiente para o impedir de continuar.
- Lestat, será que não vê que estou aqui? – ouvi de fora ela interrogá-lo.
- Claire, volte! – ele continuava a falar em alemão – Claire, eu te amo!
Então, eu pensei enquanto aguardava o elevador e entrei mais uma vez na cobertura para pedir em alemão:
- Se me ama, não conte a ela NADA sobre mim. – pedi – Vai ficar com ela mesmo, então é melhor ser solteiro, Lestat Fontaine. – falei friamente – Enjoy, meu amor.
Terminei com a palavra “gostem” em inglês, porque queria que os dois entendessem meus votos de felicidade. Quando ele se desprendeu de Louise, fora tarde demais. Eu já estava dentro do elevador e a porta fechou-se antes que ele pudesse me acompanhar.”
*yellow cab: táxis de Nova Iorque.
*yellow cab: táxis de Nova Iorque.


