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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

VIII Capítulo Wide Feeling - Por Claire Foltz.

“Amor não teme o tempo; muito embora seu alfange não poupe a mocidade. Amor não se transforma de hora em hora.
Antes, se afirma na eternidade”.
William Shakespeare
Dei mais uma pausa no passado porque no presente diante de mim, Vinicius reagira estranho mais uma vez à palavra ‘imortais’.
Algo havia por trás daquela palavra, e por trás daquela reação.
- E quanto tempo durou esse casamento de fachada? – perguntou em tom de ironia quebrando meus pensamentos.
Eu o olhei, indignada. Não era a imagem que queria passar, não foi ‘fachada’.
- O que você chama de brincadeira durou cinco séculos. – falei com um tom de voz um pouco alto demais – Não foi fingimento ou algo assim.
- O tempo não significa nada – retrucou – Ainda mais, quando se tem a eternidade.
Eu não entendia o porque daquele debate ter começado. Não entendia porque ele ficara tão rapidamente bravo e sério.
- Desculpe-me – falou e eu bufei – Só falei o que penso.
Eu não respondi.
- E atrapalhei você. – continuou – Mas antes de responder a sua pergunta, preciso que termine e fale do tempo que passou no Brasil. Como chegou a vir aqui? Se estava tão bem lá...?
Ao mesmo tempo em que falara do Brasil, vi um brilho em seus olhos. Algo me fez pensar que era a parte de seu maior interesse, mas, antes, ele precisava ouvir um pouco mais do que se passara na gelada Nova York.
- Eu não podia o deixar e nem ao menos cogitava tal hipótese. – confessei continuando de onde parei – Primeiro, porque precisava dele. Todos falavam inglês e não acharia alguém que falasse tão bem alemão como Lestat. Segundo, eu tinha a ele. Quem mais entenderia uma mulher metade animal a não ser seu próprio criador? “E por último, a coisa mais importante era que eu era viciada nele. É. Viciada é uma boa palavra pra descrever o que sentia. Eu daria minha vida por Lestat se eu a tivesse e ele conseguiu quebrar todas as definições que eu mesma criei um dia. Principalmente, a minha definição de liberdade: não ficar presa a ninguém nem a algum lugar. Mas eu ficava. Era impressionante como eu consegui por um tempo ficar sem caçar, me saciar só de Lestat. Toda noite, todo dia. Não conseguia controlar os desejos e ele nem ao menos tentava me ajudar com isso.”
- O que você chama de ‘viciada’ eu chamo de ‘apaixonada’. – falou Vinicius cabisbaixo.
- Talvez. - falei - Bem, eu nunca soube muito bem o que era o amor, então nem sei dizer ao certo...
- O que aconteceu naquela noite, depois do silêncio tenso, que você falou? – perguntou cortando-me.
Eu ri de leve. A resposta poderia parecer um pouco irônica.
- Lua de mel. – ri mais alto – Desculpe-me, mas é que sei que esperava outra coisa.
- É, você foi meio dramática, achei que estavam arrependidos. – falou ele com ironia.
- Talvez. – continuei com o tom de zombaria – Nós preferimos não falar sobre o assunto naquela noite, se é que me entende.
- Você sempre poupam palavras, seria bom se tentássemos essa teoria agora também
.- Uau. Me pareceu uma 'cantada indireta' – falei surpresa.
- Se essa é sua definição para o que falei, não vou discordar. – falou olhando-me nos olhos.
- É...você é bom. – respondi espontaneamente.
Num segundo, fiquei sem palavras. Continuei encarando-o tentando achar uma boa saída, mas não consegui.
- Desculpa, falei sem pensar.
- Te desculpar pelo elogio? – ele riu – Mas então, o que aconteceu para que viajasse ao Brasil? – perguntou por fim, quebrando o estranho...hm...clima.
- Bem, Louise aconteceu. - fiz uma careta.
- A esposa de Lestat? – perguntou ele instantaneamente – Bem, isso me faz lembrar que você é casada com ele, né...Só um pouco confuso.
Ri com a expressão de dúvida que ele fizera.
- Bem, pra começar, ou melhor, recomeçar, – ri – nós nem sempre saiamos juntos, principalmente pra caçar. Pra mim, era mais fácil homens, e pra ele, mulheres. Por isso também, não usávamos aliança. Mas isso nunca foi um problema, Lestat compensava a minha paranóia depois.
- Claro. Sempre. – Vinicius falou com ironia e me fez rir das lembranças.
- Bem, precisávamos sempre acabar mudando de um estado para outro, por conta das mortes e etc. Não queríamos ser descobertos. – fiquei um pouco mais séria – Sempre, ao voltarmos à Nova York, Lestat se encarregava de tirar as nossas malas do yellow cab* enquanto eu subia para cobertura, exausta. E assim o fizemos naquele dia de Dezembro, perto do Natal.
“Mas, havia algo, ou melhor, alguém de diferente o esperando no hall.
- Olá, quem é você? – perguntei com inglês fluente.
Nos últimos anos, não ficamos só no mel. Ele me ensinou também inglês e francês. Ensinou-me a dirigir, mas não usava muitos os meus conhecimentos automobilísticos. Ele fazia as honras de dirigir a Mercedes.
- Olá – falou a moça nervosa – Sou intercambista francesa, não sei falar inglês muito bem – nervosa e num inglês embolado, lembrando-me das primeiras aulas que tive.
Por um minuto fiquei preocupada que ela fosse alguma parente de Lestat que eu não conhecia. Mas era um medo absurdo após quinhentos anos. Então, falei para ela que não se preocupasse, em francês. Então, em seu idioma nativo disse que se chamava Louise Chevalier e que estava a procura do meu então marido, fato que ela parecia não saber.
Apesar de tudo, o sobrenome foi reconfortante, nada de Fontaine.
- Quer entrar, Louise? – falei convidando-a inocentemente.
Não sabia o que ela queria tratar com Lestat, mas não parecia algo bom. Eu não tinha ouvido dos lábios dele alguma coisa sobre a nova amiga francesa.
Ficamos em silêncio nos observando na sala de estar por alguns minutos e então Lestat abriu a maçaneta.
- Lestat! – pulou Louise do sofá para abraçá-lo. – Estava te esperando, eu tenho uma notícia maravilhosa!
Ele ficou tão confuso e surpreso que nem notara minha presença ou se quer respondia a reação da francesa.
- Estou grávida! – essa fala me fez levantar.
Antes de acusá-lo, sabia da impossibilidade daquela afirmação, o que doeu um pouco dentro de mim. Mas, se ela insinuara tal coisa, eu sabia bem o que tinha acontecido e o que ela era agora.
- Você não pode estar grávida! – falou Lestat desesperado – Claire?
Ele falou surpreso, enquanto eu dei as costas e subi as escadas para o quarto. Tinha passagens compradas para o Brasil e ia fazer uma surpresa a ele na manhã seguinte. É, eu ia. Depois da cena, as passagens passaram a ser uma boa saída.
- Claire! – falou repetidamente Lestat ao longo da escadaria tentando parar-me – Você tem que me ouvir! Você sabe que tem uma explicação!
Eu parei. Parei por ter ouvido aquilo tudo em alemão, parei por poder discutir a vontade e garantir privacidade as minhas palavras. Além de tudo, ele quis assim, o que mostrava um pouco de consideração. Consideração por mim que ele não teve no momento que dormiu com ela.
- Passou o tempo com a alemã aqui, Lestat. – falei o mais frio que pude referindo-me a nós dois – Tem uma francesa lá embaixo pra você.
- Não! Do que você está falando? - falou ele perturbado – O que vai fazer? Nós somos casados, não pode ir!
- Você não lembrou que éramos "casados" na hora, não foi? – retruquei – Me deseje boas férias no Brasil.
- Brasil? – ele falou assustado enquanto eu pegava as passagens – Não! Claire escute-me: você não pode ir ao Brasil! Não, não o Brasil! – ele falou segurando-me com as mãos.
- Lestat, você vai me deixar aqui? – falou Louise quebrando nosso diálogo no primeiro andar.
- Sabe, não gosto de triálogos ou triângulos. – falei soltando-me dele e correndo em direção a porta de saída para encontrar as malas prontas na porta do elevador.
- Claire! Claire! – Lestat insistia em me acompanhar – Ela estava... – até que Louise o parou. Era forte o suficiente para o impedir de continuar.
- Lestat, será que não vê que estou aqui? – ouvi de fora ela interrogá-lo.
- Claire, volte! – ele continuava a falar em alemão – Claire, eu te amo!
Então, eu pensei enquanto aguardava o elevador e entrei mais uma vez na cobertura para pedir em alemão:
- Se me ama, não conte a ela NADA sobre mim. – pedi – Vai ficar com ela mesmo, então é melhor ser solteiro, Lestat Fontaine. – falei friamente – Enjoy, meu amor.
Terminei com a palavra “gostem” em inglês, porque queria que os dois entendessem meus votos de felicidade. Quando ele se desprendeu de Louise, fora tarde demais. Eu já estava dentro do elevador e a porta fechou-se antes que ele pudesse me acompanhar.”

*yellow cab: táxis de Nova Iorque.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

VII Capítulo - Wide Feeling - Por Claire Foltz: V.

"O tempo é muito lento para os que esperam;
Muito rápido para os que têm medo;
Muito longo para os que lamentam;
Muito curto para os que festejam;
Mas, para os que amam, o tempo é eterno".
William Shakespeare.
“Eu estava tão perdida naqueles olhos, que mal notara o sorvete espatifado no chão.
- Desculpe, mademoiselle. – falou o rapaz quebrando o silêncio e levantando-se. – É uma lástima. Ficarei bem melhor se puder concertar isso. Aceite outro sorvete e minhas desculpas – disse beijando a minha mão, num gesto delicado da época.
Eu engoli e tentei pronunciar as palavras sem gaguejar.
- Aceito suas desculpas, senhor. Mas não precisa se preocupar quanto ao sorvete, eu...
- Faço questão. – falou interrompendo-me – Como se chama, mademoiselle?
- Heidi Schimtz – falei instantaneamente. Fui tão chamada de mademoiselle desde que chegara na França que já entendia que se tratava de mim.
- Prazer, senhorita Schimtz. – falou sempre educado – Sou Lestat Fontaine.
Nome e sobrenome francês, não tinha dúvida quanto a sua nacionalidade. Então, fomos ao balcão para que ele me recompensasse pela perda. Foi então quando notei que melara meu uniforme com o sorvete de morango, mas nada podia estragar o momento. Por alguns minutos trocamos informações e nos conhecemos melhor.
- Ouvi quando conversava em alemão com suas amigas. – falou respondendo a minha pergunta de ter acertado no idioma.
Eu sorri. Finalmente alguém me notara e se derá ao trabalho suficiente de me escutar. O sorvete abandonado entre meus dedos por vez derretia, mas finalmente chegou ao fim. Aconteceu em sincronia com os passos de Brigitte na nossa direção. Brigitte era uma das orientadoras do orfanato. Francesa naturalizada alemã, nossa acompanhante perfeita na França. De uma coisa tinha certeza: o meu diálogo com Lestat não a agradaria. Não mesmo. Se eu voltasse, tudo que conseguiria eram cinqüenta chibatadas. No mínimo.
- Heidi, venha comigo! – convidou Lestat sabendo de que nunca mais nos veríamos se eu partisse ali.Eu o olhei nos olhos. Olhei para Brigitte enfurecida. Tentei lembrar dos poucos bons momentos de minha vida que poderiam se igualar ao que eu estava vivendo. Não consegui e então, o beijei. Foi o meu ‘sim’ mais louco, mas também o mais sincero e o mais divertido. Brigitte passou do branco alemão pálido para o vermelho vivo. Eu comecei a ri de satisfação e Lestat, que adorou minha iniciativa, me puxou para o táxi mais próximo para que fugíssemos. Ele pagou em dobro ao taxista francês para que andasse mais depressa e através de todas as luzes vermelhas dos sinais. Foi desnecessário, Brigitte não tinha como nos seguir pelo trânsito.
Os táxis franceses da época tinham uma película que privava o motorista do que se passava no banco de trás. Usando desse artifício, ele começou a me beijar aos poucos. Então, passou a ser mais forte, e ele já estava em cima de mim descendo até os meus ombros e me puxando para mais perto.- Acho que vou ter que te emprestar uma roupa limpa – cochichou no meu ouvido sem parar.Eu então comecei a desabotoar a jaqueta dele, enquanto ele fazia o mesmo com o meu uniforme. O leve batom que pusera pela manhã em meus lábios já estava espalhado nos dele e eu tentava me apertar ainda mais a ele, mas minhas mãos suavam demais para que eu conseguisse. Nossas pernas estavam entrelaçadas e ele puxou a minha perna direita para que se encaixasse na sua cintura. Sua mão passava carinhosamente sobre mim, e a cada movimento uma louca sensação.
- Chegamos, mademoiselle. – falou Lestat ofegante me avisando que o táxi parou.Nos apressamos para recuperar a postura.
Penteei com os dedos meu cabelo revirado e abotoei sua jaqueta emprestada. Lestat saiu primeiro e foi logo abrir a porta para mim. Saí do veículo deixando lá a blusa com o escudo do orfanato, ainda ofegante.
Chegamos ao hotel onde ele estava e fomos logo em seguida jantar no restaurante do saguão, porque eu estava com fome. Eu pedi vinho. Álcool pela primeira vez. Ele alegava estar sem fome, só me assistia sorridente, encarar o spaghetti.”
Então, eu parei a história. Vinicius escutava tudo em absoluto silêncio, como ele iria encarar o que vinha pela frente?
- Por que parou? – perguntou ansioso.
Eu sorri sem graça e continuei:
- Onde eu estava hospedada ficava a poucos minutos do hotel onde estávamos. – falei continuando – Não que eu fosse encarar Brigitte naquela noite com três taças de vinho expostas na minha cara.
“Fomos ao elevador e ele continuou a cena do táxi. Mas agora não havia ninguém em sã consciência que o pararia, incluindo eu. Eu só queria que ele não parasse, e mesmo que fosse pecado, como afirmavam as orientadoras, eu iria feliz para o inferno só por o tê-lo. E então, aconteceu. Se Brigitte soubesse, sei que diria que não só perdi a virgindade, mas o juízo naquela noite. Eu estava por descobrir que perdi algo mais.
O que mais me choca agora, sabendo como tudo funciona, é como ele conseguiu sem que me matasse. Ter algo tão íntimo com uma humana, quando na verdade ela deveria ser seu jantar. Mas ele não fez nenhum joguinho. Ele mal sabia o que era, mal sabia se transformar e nunca gostava de tocar no passado. Fora o primeiro da espécie, não havia ninguém que o pudesse ajudar.
Na manhã seguinte, quase à tarde, acordei e me deparei sozinha na cama. Sentia-me estranha, diferente. Lestat caminhava de um lado pra outro de toalha visivelmente preocupado.
- O que houve, Lestat? – perguntei aflita tocando seu ombro e fazendo-o parar.
Pensei por um minuto e cheguei a uma doida conclusão.
- EU NÃO ESTOU GRÁVIDA, NÃO É? – falei histérica só de pensar na gravidade.
Brigitte e as demais nos privavam de qualquer informação básica, então eu supunha que ele saberia se eu estivesse mais do que mim mesma.
- Não sei! – respondeu calmamente, porém angustiado – Mal sei se você pode...Se eu posso...se podemos...
Não dei muito valor àquela frase.
- O que eu sou agora então? – falei histérica – FALE LESTAT! – disse segurando seu rosto entre os dedos para que ele olhasse em meus olhos.Ele pegou carinhosamente minhas mãos e as afagava antes de responder.
Eu olhava sua reação incompreensível.
- Heidi...Desculpe-me. – falou com pesar. – Eu não entendo, eu não sabia que conseguiria! Não sabia que aconteceria tudo isso sem que eu matasse você!
Só agora entendo aquelas palavras.
Sem mais explicações, ele pegou algumas malas que possuía no armário e colocou uns itens que ele achava necessário.
- Você vai me deixar? – perguntei chorosa – Vai me abandonar sem ao menos me explicar?
Ele me abraçou forte, alisava a minha cabeça e eu me derramei em lágrimas no seu ombro.
- Liebe Dich, Heidi. – falou com carinho “Eu te amo” em alemão. – Nunca se esqueça disso. Não vou jamais te abandonar, mas nós temos que partir. O quanto antes.
Uma promessa e um desafio. Mas em quem mais poderia confiar?
Sem mais perguntas, nos vestimos e fomos ao aeroporto da cidade. Lestat era naturalizado americano, então se eu fosse sua suposta esposa, poderia entrar nos Estados Unidos. Com o visto, partimos para o outro lado do globo. Sem cerimônias, nos casamos em Nova York. Pra que jamais me encontrassem, passei a me chamar Claire Foltz, nome inteiramente escolhido por Lestat, que agora era senhor Foltz. Se não me engano, Claire é francês e Foltz, alemão.
Com os documentos em mãos, fomos ao apartamento que ele possuía na cidade. Nenhum de nós falava uma palavra se quer, e o silêncio era tenso. Só tínhamos definitivamente um ao outro para aprender ou descobrir o que éramos. E tínhamos tempo. Se tinha uma coisa que sabíamos era que nunca teríamos o direito de morrer. Seríamos sempre imortais.”

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

VI Capítulo – Wide Feeling – Por Claire Foltz – IV.

“Quem tem mais culpa: o tentado ou o tentador?”
William Shakespeare

- Claire? – uma voz me chamou de volta a realidade.
- Oi, desculpa, estava um pouco longe, Vinicius – falei.
- Vinicius? – riu – Ele desceu com as bagagens e com os demais a pouco tempo.
- Lestat? – finalmente percebi quem era – O que faz aqui?
- Na minha casa? – riu ironicamente de novo - Enfim, Louise se encarregou de mostrar ao brasileiro onde está o conversível vermelho. Vou emprestá-lo a vocês, afinal, já foi seu um dia.
- Pode parar, Lestat! – falei em voz alta antes que ele continuasse – Lembro muito bem do que aconteceu.
- Então lembra que temos assuntos a tratar, não é Heidi? – Lestat falou tocando meu rosto.
- CLAIRE! – falei histérica – É irônico como desta vez você faz questão de que eu vá ao Brasil. Deve se lembrar que anos atrás fez de tudo para que eu não fosse – retruquei.
Ficamos em silêncio e Vinicius apareceu na porta.
- Desculpe atrapalhar, eu só...
- Já estou pronta. – falei ao perceber que ele estava sem jeito – Lestat fez questão dos últimos avisos. Só isso, Vinicius. Vamos?
Olhei pela última vez nos olhos profundos de Lestat e caminhei até a porta.
- Sei que está pronta, Claire. – falou Lestat segurando meu braço.
Apenas ouvi, não o olhei e continuei a caminhar. O que tivéssemos de resolver não poderia ser ali, daquele jeito. Pegamos o elevador que chegou sem demora.
- Desculpe-me Claire, mas eu ouvi a conversa. – Vinicius me surpreendeu com a declaração.
Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer, mas não fiquei chateada ou algo assim por ele ter o feito.
- Eu sei que nos conhecemos há literalmente pouco tempo – falou sem jeito – mas...
- O que está havendo? – perguntei para encorajá-lo.
- Me responda, por favor, quem é Lestat? – perguntou aflito.
Olhei constrangida para ele.
- Achei que você soubesse. – aproveitei e fiz a minha pergunta – Como está aqui sem nem ao menos conhecê-lo?
Ele fez uma careta para mim e sem demora captei a mensagem.
- OK, eu respondo primeiro. – o elevador chegou ao térreo e fomos até o carro – Ele é, digamos, o nosso criador. Foi o primeiro da nossa espécie.
Ele pareceu insatisfeito com a resposta.
- Mas, o que Lestat representa pra você? – fez uma nova pergunta.
Engoli a seco.
- Bem objetiva sua pergunta. – falei sem graça.
Antes de responder fui até o lado do motorista como de costume, enquanto ele colocava as malas atrás. Inesperadamente ele me deteve depressa.
- Essa é uma das poucas coisas que posso fazer por você. – falou gentilmente – Se me der o prazer.
Recuei e fui até o lado do passageiro. Ao sairmos da garagem vi como o dia estava normalmente nublado em Nova York.
- Acho que te devo uma explicação ainda – falei por fim.
- É verdade – ele riu – E te devo também uma resposta, não esqueci.
- Isso é bom. – falei com ironia – Vou tentar ser bem objetiva como a sua pergunta fora: Lestat é casado comigo.
Vi sua expressão de espanto e podia imaginar o que se passava por sua cabeça: Louise e a conversa no quarto.
- Uau, é muito mais do que eu esperava. – confessou.
Ao terminar a fala, parei para pensar. Eu fugira do passado muitas vezes, porque acreditava que o mesmo não adiantaria de nada, que só devia me interessar com o futuro. Fugi mais uma vez naquele quarto, com Lestat. Talvez fosse uma boa hora para voltar atrás, encarar e analisar bem os fatos.
- É melhor que eu conte do começo. – expliquei.
- Concordo – falou com ironia – Você não pode ser casada com ele. Fala sério.
Olhei para ele espantada. Não fazia sentido aquela afirmação se ele não me conhecia e muito menos Lestat.
- Por que tanta firmeza nessa frase? – perguntei curiosa.
- Primeiro as mademoiselles. – falou ironizando o francês de Lestat e lembrando-me de que tinha algo a concluir.
Engoli a saliva e estava disposta a lhe falar. Fitei o horizonte e mergulhei nas minhas recordações.

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- Eu fui a primeira a conhecer Lestat entre todos naquela sala. Antes mesmo que Louise. – esclareci - Como deve ter percebido, ele é francês, e eu, alemã. Quando o conheci me chamava Heidi Schimtz e era órfã. Desde sempre morei no Weibliche Waisenhaus Katja.
Ele riu da minha pronúncia e antes que perguntasse expliquei:
- Era o nome do orfanato para meninas onde morava na Alemanha e Katja era a diretora e fundadora do mesmo. “Naquele ano, eu e mais três meninas do infernato – ri lembrando-me como costumava chamar – completaríamos dezessete anos e uma das tradições centenárias do mesmo era levar as garotas que completassem tal idade para conhecer uma filial na França, como presente de aniversário”.
Antes que pudesse continuar, chegamos ao aeroporto. Descemos do carro e fizemos todo o ritual para viajar.
- Por que está tão tensa? – perguntou, atento a minha expressão.
- Anos sem vir a um desses – falei referindo-me ao aeroporto – e a última vez não me parece agradável agora. Vai entender ao longo da história – falei por fim.
Sem demoras e com todo o trabalho feito, só cabia-nos esperar. Talvez já estaríamos lá se fossemos a pé. Hipérbole.
- Então você foi para França? – retomou a conversa.
- Sim, todas nós. – respondi - Eu não estava animada, não havia nada de aventureiro na França aparentemente. Pra começar, fomos lavar pratos e forrar camas para que futuramente fossemos boas donas de casa. E depois, não sabíamos uma palavra que não fosse em Alemão.
“Agora percebo que as orientadoras se sustentavam nesse fato: ficaríamos caladas e longe dos garotos franceses mesmo sem as quatro paredes do orfanato por conta do idioma.
Se bem que, na prática, isso não funcionou comigo. Ele estava lá, naquela última tarde na França, na sorveteria Hubens, ocupando uma das mesas. Eu o fitava e ele correspondia, mas foi o convite em um alemão fluente que me fez sorrir e parar”.
[ Continua... ]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

V Capítulo - Wide Feeling - Por Claire Foltz III

"A minha consciência tem milhares de vozes, e cada voz traz-me milhares de histórias, e de cada história sou a vilã condenada."
adaptado: William Shakespeare - Livro Claire Foltz.
Enquanto Lestat explicava aos demais o provável (claro que eu seria a escolhida para voltar até a América do Sul), a minha atenção estava voltada para dois integrantes em especial daquela reunião: Louise e o rapaz do canto.
A atual esposa de Lestat não parecia me conhecer, se o fosse, não teria me tratado com tanta cortesia. Tecnicamente, era dois anos a minha frente, mas, em termos de experiência, séculos atrás. Perguntava-me se Lestat tinha sido verdadeiro com ela, se a deixara compartilhar do seu passado, o qual eu estava diretamente envolvida.
E finalmente, o rapaz alto que ouvia com atenção as instruções do monsieur. Como podia ele estar ali sem que eu o conhecesse ou se quer o visse por uma mera vez na minha...vida?
- Mademoiselle, não poderia deixar de convocar alguém para protegê-la durante a operação na floresta. Bem, além de tudo, um guia. Sei que nunca esteve na Amazônia e sem ele, além de se perder, teria problemas com a língua local. Portanto, conheça o nosso mais novo amigo brasileiro. – disse Lestat despertando-me.
Os meus olhos já estavam voltados para ele desde que Lestat começara a falar e não desviaram do foco nem ao ouvir a nacionalidade do rapaz. Ele deslocou-se rápido para o centro da sala onde estávamos eu e monsieur Fontaine, esperando-o.
- Olá, meu nome é Vinicius – falou com um inglês básico o que me fez pensar nos possíveis problemas de comunicação que teríamos em frente - Prazer em conhecê-la.
Em seguida, estendeu a mão pra me cumprimentar. Antes de qualquer ação, olhei em volta, até chegar a Lestat com um sorriso de prazer só de pensar que os surpreenderia com minha atitude incomum. Por fim, apertei sua mão. Ele sorriu aliviado e eu correspondi.
- O prazer é todo meu, Vi... – o nome era exótico demais para que uma Alemã pronunciasse de primeira – Desculpe-me, sou Alemã e nunca tive a oportunidade de ouvir esse nome antes.
Lestat estava chocado com a minha gentileza, e eu adorava que estivesse assim.
- Não tem problema – disse ainda segurando minha mão – Terá tempo para aprender.
Ele parecia muito bom (se é que me entendem) para estar entre seres como nós. Será que ele sabia mesmo a verdade ou Lestat a escondera mais uma vez?
- Mademoiselle – disse Lestat tomando minha mão do rapaz – me comunicarei com você, digo, vocês, através do colar. Vocês irão de avião até...como se chama...
- Tocantins. – complementou Vinicius – É bem perto. De lá podemos ir a pé.
- Tem certeza? – tive de perguntar.
Depois da minha pergunta, o brasileiro sorriu maliciosamente e olhando-me falou:
- Posso te acompanhar, Foltz. Também tenho quatro patas.
Todos riram com o tipo de trocadilho. E eu me surpreendi por ele saber meu sobrenome tão depressa.
- Isso é o que veremos, Vinicius.
- Pronúncia perfeita, Claire. – falou sorrindo.
Percebi que quando ele me provocasse saberia exatamente como pronunciar o seu nome. Sem mais demoras, subi as escadas para os preparativos da viagem. Tínhamos de ir o quanto antes.

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- O que devo levar? – disse comigo mesma procurando coisas úteis além das roupas que Lestat me dera para a bagagem.
- Boa pergunta, Foltz.
- AH! – fui pega despreparada com a resposta inesperada do brasileiro.
Ele riu.
- Desculpe-me se te assustei – falou – não foi minha intenção.
- Acho que não tem problema, não há como morrer. – falei a verdade.
Ele se posicionou ao meu lado de frente a cama e de repente, tirou a camisa.
- Posso saber o que você está fazendo?
- Bem, eu não trouxe uma mala, preciso de alguma coisa para colocar meus pertences e é costume de onde venho usar a camisa nessas horas – explicou divertindo-se – mas se te incomoda, eu posso...
- Não, não! – parei por alguns segundos surpresa com meu tom histérico, quase desesperado – Não me parece justo interferir nas suas idéias culturais, por mais selvagens que pareçam.
Ele riu novamente e me...abraçou.
- Desculpe. É costume também abraçar – falou maliciosamente.
- Não precisa me mostrar mais alguns de seus atos culturais. Em pouco tempo poderei presenciá-los, não é?
Eu parecia bem divertida para ele. Sentia-me...bem. Bem diferente, é verdade. Mas sentia-me como uma certa Heidi, a qual pela primeira vez senti saudades. O espelho me refletia e eu podia ver ali a Heidi que não mais sou. Apesar da semelhança física, sei que não sou mais nada ou não posso ser mais do que a minha consciência deixar por fim.
[ Continua... ]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

IV Capítulo Wide Feeling - Por Claire Foltz - II

"Algo só acaba quando realmente deve acabar. Como dizem os humanos, na 'vida' todo fim é um novo começo."
Livro Claire Foltz - parte II
As luzes de Nova York refletiam no Atlântico. Promessa de uma chegada. Era noite quando a Estátua da Liberdade se aproximava, e eu então me transformei. Uma das coisas ruins da mesma é que você não pode evitar ficar em trapos quando se torna humana. Isso sim é um problema quando se pretende atravessar a Times Square, mas encontraria um jeito.
Caminhei para a praia sentindo o vento frio na pele molhada. Se houvesse alguém ali, estaria estranhando o meu prazer enquanto tentasse não bater o queixo ou congelar. A minha sensação favorita.
- Claire – fui pega de surpresa por uma voz familiar logo atrás de mim.
Virei e sem esforço reconheci a jovem que caminhava para perto.
Louise. – falei confusa.
Ela apenas sorriu, e veio ainda mais para perto através da escuridão, olhando para os lados, mas para seu agrado a praia estava vazia. A esposa de Lestat viera me recepcionar. O mais provável.
- Não preciso me explicar, não é mesmo? – sempre com o sorriso doce – basta ver a sua situação, que logo percebemos que você precisa de ajuda. Lestat providenciou tudo que precisará, siga-me.
Acompanhei a Senhora Fontaine até a parte mais obscura da praia. Como não poderia sair dali como estava, ela teve de encontrar para mim um bom trocador de roupas. Vesti os presentes de Lestat: um vestido branco que mais parecia roupa de fada, uma sandália alta de tiras e prata e um tipo de véu branco, além de um belíssimo colar.
- Acho que agora podemos ir, sim? – concordei – Ele está a sua espera.
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Depois de alguns minutos chegamos à cobertura na Times Square. Lestat apreciava o luxo e os bens (humanos) materiais. Louise abriu a porta, e eu dei de cara com uma reunião inesperada.
- Não se assuste, Claire. É bastante necessário que todos estejam aqui.
Pelo visto o que Lestat tinha para me dizer envolvia todos os tigres brancos que eu sabia da existência. Todos estavam lá, em torno de vinte pessoas na...festa. Faces conhecidas de uma memória distante com apenas um estranho no canto da sala que olhava para a rua até a minha chegada quase triunfal. Quem seria?
- Bem-vinda, mademoiselle. – disse Lestat num tom amigável.
- Merci, monsieur. – respondi em francês, tentando agradá-lo.
Ele riu divertindo-se.
- Bem minha querida, talvez o tal Shadow e a loba sejam, digamos, mas dor de cabeça do que você pode imaginar.
- Como ficou sabendo deles? – tanto tempo atrás, fatos dos quais queria me esquecer – Mas de qualquer forma, eu já...
- Não, mademoiselle. Ela está à solta. – falou Lestat me interrompendo, depois tomou um gole intenso do whisky desnecessariamente.
- Mas, não pode ser...
- O maior problema, é o que envolve todos nós. Acabei por descobrir que ela estava há um bom tempo com uma alcatéia na Amazônia – o estranho rapaz endireitou-se para prestar finalmente atenção – mas ela se deslocou para o nordeste a pouco tempo e depois voltou para a floresta.
“O fato de ela estar viva já é de preocupar. A raiva que ela provavelmente já tem por você, Claire, se unirá ao desejo de fazer valer a missão do amado, o qual você matou, ou seja, o único meio de destruição de uma espécie imortal como nós. Não gosto da distância, fico sem informações, precisamos estar lá. Portanto tenho um plano e preciso que o ouçam com atenção, ou, deixaremos de existir”.
[ Continua... ]

domingo, 29 de novembro de 2009

III Capítulo - Wide Feeling - Por Claire Foltz.

“Tudo tem um começo e provavelmente um fim. Às vezes pensamos que podemos determinar o término de certa coisa, mas é tudo engano. Algo só acaba quando realmente deve acabar. Não importa quanto tempo passe ou quanto tempo vai levar. “
Livro Claire Foltz

Os dias no Brasil estavam quentes, como de costume. Sol, calor, sol... Definitivamente, não era do meu agrado. Depois de conseguir mais uma vez o que queria (não que eu já tivesse alguma vez sido desapontada), voltar para casa me parecia uma boa opção, para quem sabe, comemorar. Durante o caminho peguei alguns dos humanos inúteis do México e América Central que tentavam afrontar minha forma animal (Gostava de apreciar suas caras de espanto ao verem uma tigresa branca frente a frente, logo uma variação da espécie tão incomum no mundo, quanto mais na América do Sul) ou os que tentavam se aproveitar de uma jovem com olhos bonitos, perdida e indefesa.
Voltei aos Estados Unidos para aquele natal (não para a comemoração inútil, mas para um pouco de neve sobre o meu pêlo), entretanto, não fiquei por muito tempo. Com a loba fora do meu caminho, o mundo estava sob meus pés (ou patas). E mil anos se passaram. Século após século. Era 2009, e quando seu rosto não mostra nenhuma marca do tempo, você pode, digamos de maneira mais atual: curtir. Foi o que eu fiz, e agora, em pleno século XXI, não há sequer um canto do globo terrestre o qual eu não tenha visitado. Minha adorada e familiar Alemanha. Minha deliciosa Itália e seus encantadores italianos. A França, antes e depois da Torre Eiffel. A Argentina, e seu tango, dança a qual me atrevi a tentar. O mundo. Se, Lestat não tivesse me chamado com tanta urgência, faria esforço por mais um tempo para não matar Jiuseppe na Itália. Valia a pena ficar com alguém como ele mais um pouco que seja, aquele sotaque, aqueles olhos...Mas, Lestat fora curto, claro e urgente. Havia algo que eu deveria saber. Até os Estados Unidos, por oceano seria mais fácil. Fui até a Rússia em busca de águas mais geladas, e entrei no Atlântico, certa de que algo estava errado e que algo estava por vir.
[ Continua ]

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Capítulo II - Wide Feeling

“Maturidade não tem haver com a idade que você tem, mas sim com o tipo de experiências pelas quais você já passou e o que aprendeu com cada uma delas.”
Eu a faria pagar. De algum modo, algum dia. Mas, sabia que tudo
tinha de ser feito com cautela, muita cautela. Fugi de onde estava e fiquei
por alguns dias sem rumo. Porém, precisava de ajuda. Nunca conseguiria sozinha atravessar o mar do desconhecido. Precisava de alguém que
tivesse experiência, que tivesse força e me oferecesse proteção.
E eu encontrei. Não alguém, mas algo: um clã de lobos.
Eles me passaram todo o seu conhecimento, e eu procurava absorver cada palavra.
Apesar disso, eu percebia que existia um segredo, o qual não me
contavam, e perguntava-me se era por não estar preparada ou se
nunca saberia enfim. Meio milênio se passara, e eu me sentia então em
casa
. Só depois desse tempo os lobos me deixaram a par de uma nova
situação: Walegac. Nome nativo para o ritual do qual eu teria de
passar, um tipo de reposição de forças, de preparação. Eles sabiam que eu jamais esqueceria o episódio, que ele havia apenas sido afundado nas minhas memórias, mas estava lá. Por isso talvez quiseram me
preparar, para seja lá o que eu iria fazer. Eu sentia que não só a hora
do Walegac se aproximava, mas de um novo começo. Antes de tudo,
três avisos da alcatéia:
1º: Só estaria pronta mais meio milênio depois;
2º: Quando estivesse pronta, saberia para o que havia me preparado. Saberia o que fazer e como fazer, e os planos ficariam claros em minha mente;
3º: O ritual provocaria a libertação da minha força interior. E isso iria ser de grande utilidade em algum momento do futuro próximo. Eu ouvira tudo atentamente, até que de súbito, os lobos uivaram. A lua era cheia e estava estrategicamente alinhada aos planetas.
Chegara a hora.
[Continua]