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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

VII Capítulo - Wide Feeling - Por Claire Foltz: V.

"O tempo é muito lento para os que esperam;
Muito rápido para os que têm medo;
Muito longo para os que lamentam;
Muito curto para os que festejam;
Mas, para os que amam, o tempo é eterno".
William Shakespeare.
“Eu estava tão perdida naqueles olhos, que mal notara o sorvete espatifado no chão.
- Desculpe, mademoiselle. – falou o rapaz quebrando o silêncio e levantando-se. – É uma lástima. Ficarei bem melhor se puder concertar isso. Aceite outro sorvete e minhas desculpas – disse beijando a minha mão, num gesto delicado da época.
Eu engoli e tentei pronunciar as palavras sem gaguejar.
- Aceito suas desculpas, senhor. Mas não precisa se preocupar quanto ao sorvete, eu...
- Faço questão. – falou interrompendo-me – Como se chama, mademoiselle?
- Heidi Schimtz – falei instantaneamente. Fui tão chamada de mademoiselle desde que chegara na França que já entendia que se tratava de mim.
- Prazer, senhorita Schimtz. – falou sempre educado – Sou Lestat Fontaine.
Nome e sobrenome francês, não tinha dúvida quanto a sua nacionalidade. Então, fomos ao balcão para que ele me recompensasse pela perda. Foi então quando notei que melara meu uniforme com o sorvete de morango, mas nada podia estragar o momento. Por alguns minutos trocamos informações e nos conhecemos melhor.
- Ouvi quando conversava em alemão com suas amigas. – falou respondendo a minha pergunta de ter acertado no idioma.
Eu sorri. Finalmente alguém me notara e se derá ao trabalho suficiente de me escutar. O sorvete abandonado entre meus dedos por vez derretia, mas finalmente chegou ao fim. Aconteceu em sincronia com os passos de Brigitte na nossa direção. Brigitte era uma das orientadoras do orfanato. Francesa naturalizada alemã, nossa acompanhante perfeita na França. De uma coisa tinha certeza: o meu diálogo com Lestat não a agradaria. Não mesmo. Se eu voltasse, tudo que conseguiria eram cinqüenta chibatadas. No mínimo.
- Heidi, venha comigo! – convidou Lestat sabendo de que nunca mais nos veríamos se eu partisse ali.Eu o olhei nos olhos. Olhei para Brigitte enfurecida. Tentei lembrar dos poucos bons momentos de minha vida que poderiam se igualar ao que eu estava vivendo. Não consegui e então, o beijei. Foi o meu ‘sim’ mais louco, mas também o mais sincero e o mais divertido. Brigitte passou do branco alemão pálido para o vermelho vivo. Eu comecei a ri de satisfação e Lestat, que adorou minha iniciativa, me puxou para o táxi mais próximo para que fugíssemos. Ele pagou em dobro ao taxista francês para que andasse mais depressa e através de todas as luzes vermelhas dos sinais. Foi desnecessário, Brigitte não tinha como nos seguir pelo trânsito.
Os táxis franceses da época tinham uma película que privava o motorista do que se passava no banco de trás. Usando desse artifício, ele começou a me beijar aos poucos. Então, passou a ser mais forte, e ele já estava em cima de mim descendo até os meus ombros e me puxando para mais perto.- Acho que vou ter que te emprestar uma roupa limpa – cochichou no meu ouvido sem parar.Eu então comecei a desabotoar a jaqueta dele, enquanto ele fazia o mesmo com o meu uniforme. O leve batom que pusera pela manhã em meus lábios já estava espalhado nos dele e eu tentava me apertar ainda mais a ele, mas minhas mãos suavam demais para que eu conseguisse. Nossas pernas estavam entrelaçadas e ele puxou a minha perna direita para que se encaixasse na sua cintura. Sua mão passava carinhosamente sobre mim, e a cada movimento uma louca sensação.
- Chegamos, mademoiselle. – falou Lestat ofegante me avisando que o táxi parou.Nos apressamos para recuperar a postura.
Penteei com os dedos meu cabelo revirado e abotoei sua jaqueta emprestada. Lestat saiu primeiro e foi logo abrir a porta para mim. Saí do veículo deixando lá a blusa com o escudo do orfanato, ainda ofegante.
Chegamos ao hotel onde ele estava e fomos logo em seguida jantar no restaurante do saguão, porque eu estava com fome. Eu pedi vinho. Álcool pela primeira vez. Ele alegava estar sem fome, só me assistia sorridente, encarar o spaghetti.”
Então, eu parei a história. Vinicius escutava tudo em absoluto silêncio, como ele iria encarar o que vinha pela frente?
- Por que parou? – perguntou ansioso.
Eu sorri sem graça e continuei:
- Onde eu estava hospedada ficava a poucos minutos do hotel onde estávamos. – falei continuando – Não que eu fosse encarar Brigitte naquela noite com três taças de vinho expostas na minha cara.
“Fomos ao elevador e ele continuou a cena do táxi. Mas agora não havia ninguém em sã consciência que o pararia, incluindo eu. Eu só queria que ele não parasse, e mesmo que fosse pecado, como afirmavam as orientadoras, eu iria feliz para o inferno só por o tê-lo. E então, aconteceu. Se Brigitte soubesse, sei que diria que não só perdi a virgindade, mas o juízo naquela noite. Eu estava por descobrir que perdi algo mais.
O que mais me choca agora, sabendo como tudo funciona, é como ele conseguiu sem que me matasse. Ter algo tão íntimo com uma humana, quando na verdade ela deveria ser seu jantar. Mas ele não fez nenhum joguinho. Ele mal sabia o que era, mal sabia se transformar e nunca gostava de tocar no passado. Fora o primeiro da espécie, não havia ninguém que o pudesse ajudar.
Na manhã seguinte, quase à tarde, acordei e me deparei sozinha na cama. Sentia-me estranha, diferente. Lestat caminhava de um lado pra outro de toalha visivelmente preocupado.
- O que houve, Lestat? – perguntei aflita tocando seu ombro e fazendo-o parar.
Pensei por um minuto e cheguei a uma doida conclusão.
- EU NÃO ESTOU GRÁVIDA, NÃO É? – falei histérica só de pensar na gravidade.
Brigitte e as demais nos privavam de qualquer informação básica, então eu supunha que ele saberia se eu estivesse mais do que mim mesma.
- Não sei! – respondeu calmamente, porém angustiado – Mal sei se você pode...Se eu posso...se podemos...
Não dei muito valor àquela frase.
- O que eu sou agora então? – falei histérica – FALE LESTAT! – disse segurando seu rosto entre os dedos para que ele olhasse em meus olhos.Ele pegou carinhosamente minhas mãos e as afagava antes de responder.
Eu olhava sua reação incompreensível.
- Heidi...Desculpe-me. – falou com pesar. – Eu não entendo, eu não sabia que conseguiria! Não sabia que aconteceria tudo isso sem que eu matasse você!
Só agora entendo aquelas palavras.
Sem mais explicações, ele pegou algumas malas que possuía no armário e colocou uns itens que ele achava necessário.
- Você vai me deixar? – perguntei chorosa – Vai me abandonar sem ao menos me explicar?
Ele me abraçou forte, alisava a minha cabeça e eu me derramei em lágrimas no seu ombro.
- Liebe Dich, Heidi. – falou com carinho “Eu te amo” em alemão. – Nunca se esqueça disso. Não vou jamais te abandonar, mas nós temos que partir. O quanto antes.
Uma promessa e um desafio. Mas em quem mais poderia confiar?
Sem mais perguntas, nos vestimos e fomos ao aeroporto da cidade. Lestat era naturalizado americano, então se eu fosse sua suposta esposa, poderia entrar nos Estados Unidos. Com o visto, partimos para o outro lado do globo. Sem cerimônias, nos casamos em Nova York. Pra que jamais me encontrassem, passei a me chamar Claire Foltz, nome inteiramente escolhido por Lestat, que agora era senhor Foltz. Se não me engano, Claire é francês e Foltz, alemão.
Com os documentos em mãos, fomos ao apartamento que ele possuía na cidade. Nenhum de nós falava uma palavra se quer, e o silêncio era tenso. Só tínhamos definitivamente um ao outro para aprender ou descobrir o que éramos. E tínhamos tempo. Se tinha uma coisa que sabíamos era que nunca teríamos o direito de morrer. Seríamos sempre imortais.”

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

VI Capítulo – Wide Feeling – Por Claire Foltz – IV.

“Quem tem mais culpa: o tentado ou o tentador?”
William Shakespeare

- Claire? – uma voz me chamou de volta a realidade.
- Oi, desculpa, estava um pouco longe, Vinicius – falei.
- Vinicius? – riu – Ele desceu com as bagagens e com os demais a pouco tempo.
- Lestat? – finalmente percebi quem era – O que faz aqui?
- Na minha casa? – riu ironicamente de novo - Enfim, Louise se encarregou de mostrar ao brasileiro onde está o conversível vermelho. Vou emprestá-lo a vocês, afinal, já foi seu um dia.
- Pode parar, Lestat! – falei em voz alta antes que ele continuasse – Lembro muito bem do que aconteceu.
- Então lembra que temos assuntos a tratar, não é Heidi? – Lestat falou tocando meu rosto.
- CLAIRE! – falei histérica – É irônico como desta vez você faz questão de que eu vá ao Brasil. Deve se lembrar que anos atrás fez de tudo para que eu não fosse – retruquei.
Ficamos em silêncio e Vinicius apareceu na porta.
- Desculpe atrapalhar, eu só...
- Já estou pronta. – falei ao perceber que ele estava sem jeito – Lestat fez questão dos últimos avisos. Só isso, Vinicius. Vamos?
Olhei pela última vez nos olhos profundos de Lestat e caminhei até a porta.
- Sei que está pronta, Claire. – falou Lestat segurando meu braço.
Apenas ouvi, não o olhei e continuei a caminhar. O que tivéssemos de resolver não poderia ser ali, daquele jeito. Pegamos o elevador que chegou sem demora.
- Desculpe-me Claire, mas eu ouvi a conversa. – Vinicius me surpreendeu com a declaração.
Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer, mas não fiquei chateada ou algo assim por ele ter o feito.
- Eu sei que nos conhecemos há literalmente pouco tempo – falou sem jeito – mas...
- O que está havendo? – perguntei para encorajá-lo.
- Me responda, por favor, quem é Lestat? – perguntou aflito.
Olhei constrangida para ele.
- Achei que você soubesse. – aproveitei e fiz a minha pergunta – Como está aqui sem nem ao menos conhecê-lo?
Ele fez uma careta para mim e sem demora captei a mensagem.
- OK, eu respondo primeiro. – o elevador chegou ao térreo e fomos até o carro – Ele é, digamos, o nosso criador. Foi o primeiro da nossa espécie.
Ele pareceu insatisfeito com a resposta.
- Mas, o que Lestat representa pra você? – fez uma nova pergunta.
Engoli a seco.
- Bem objetiva sua pergunta. – falei sem graça.
Antes de responder fui até o lado do motorista como de costume, enquanto ele colocava as malas atrás. Inesperadamente ele me deteve depressa.
- Essa é uma das poucas coisas que posso fazer por você. – falou gentilmente – Se me der o prazer.
Recuei e fui até o lado do passageiro. Ao sairmos da garagem vi como o dia estava normalmente nublado em Nova York.
- Acho que te devo uma explicação ainda – falei por fim.
- É verdade – ele riu – E te devo também uma resposta, não esqueci.
- Isso é bom. – falei com ironia – Vou tentar ser bem objetiva como a sua pergunta fora: Lestat é casado comigo.
Vi sua expressão de espanto e podia imaginar o que se passava por sua cabeça: Louise e a conversa no quarto.
- Uau, é muito mais do que eu esperava. – confessou.
Ao terminar a fala, parei para pensar. Eu fugira do passado muitas vezes, porque acreditava que o mesmo não adiantaria de nada, que só devia me interessar com o futuro. Fugi mais uma vez naquele quarto, com Lestat. Talvez fosse uma boa hora para voltar atrás, encarar e analisar bem os fatos.
- É melhor que eu conte do começo. – expliquei.
- Concordo – falou com ironia – Você não pode ser casada com ele. Fala sério.
Olhei para ele espantada. Não fazia sentido aquela afirmação se ele não me conhecia e muito menos Lestat.
- Por que tanta firmeza nessa frase? – perguntei curiosa.
- Primeiro as mademoiselles. – falou ironizando o francês de Lestat e lembrando-me de que tinha algo a concluir.
Engoli a saliva e estava disposta a lhe falar. Fitei o horizonte e mergulhei nas minhas recordações.

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- Eu fui a primeira a conhecer Lestat entre todos naquela sala. Antes mesmo que Louise. – esclareci - Como deve ter percebido, ele é francês, e eu, alemã. Quando o conheci me chamava Heidi Schimtz e era órfã. Desde sempre morei no Weibliche Waisenhaus Katja.
Ele riu da minha pronúncia e antes que perguntasse expliquei:
- Era o nome do orfanato para meninas onde morava na Alemanha e Katja era a diretora e fundadora do mesmo. “Naquele ano, eu e mais três meninas do infernato – ri lembrando-me como costumava chamar – completaríamos dezessete anos e uma das tradições centenárias do mesmo era levar as garotas que completassem tal idade para conhecer uma filial na França, como presente de aniversário”.
Antes que pudesse continuar, chegamos ao aeroporto. Descemos do carro e fizemos todo o ritual para viajar.
- Por que está tão tensa? – perguntou, atento a minha expressão.
- Anos sem vir a um desses – falei referindo-me ao aeroporto – e a última vez não me parece agradável agora. Vai entender ao longo da história – falei por fim.
Sem demoras e com todo o trabalho feito, só cabia-nos esperar. Talvez já estaríamos lá se fossemos a pé. Hipérbole.
- Então você foi para França? – retomou a conversa.
- Sim, todas nós. – respondi - Eu não estava animada, não havia nada de aventureiro na França aparentemente. Pra começar, fomos lavar pratos e forrar camas para que futuramente fossemos boas donas de casa. E depois, não sabíamos uma palavra que não fosse em Alemão.
“Agora percebo que as orientadoras se sustentavam nesse fato: ficaríamos caladas e longe dos garotos franceses mesmo sem as quatro paredes do orfanato por conta do idioma.
Se bem que, na prática, isso não funcionou comigo. Ele estava lá, naquela última tarde na França, na sorveteria Hubens, ocupando uma das mesas. Eu o fitava e ele correspondia, mas foi o convite em um alemão fluente que me fez sorrir e parar”.
[ Continua... ]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

V Capítulo - Wide Feeling - Por Claire Foltz III

"A minha consciência tem milhares de vozes, e cada voz traz-me milhares de histórias, e de cada história sou a vilã condenada."
adaptado: William Shakespeare - Livro Claire Foltz.
Enquanto Lestat explicava aos demais o provável (claro que eu seria a escolhida para voltar até a América do Sul), a minha atenção estava voltada para dois integrantes em especial daquela reunião: Louise e o rapaz do canto.
A atual esposa de Lestat não parecia me conhecer, se o fosse, não teria me tratado com tanta cortesia. Tecnicamente, era dois anos a minha frente, mas, em termos de experiência, séculos atrás. Perguntava-me se Lestat tinha sido verdadeiro com ela, se a deixara compartilhar do seu passado, o qual eu estava diretamente envolvida.
E finalmente, o rapaz alto que ouvia com atenção as instruções do monsieur. Como podia ele estar ali sem que eu o conhecesse ou se quer o visse por uma mera vez na minha...vida?
- Mademoiselle, não poderia deixar de convocar alguém para protegê-la durante a operação na floresta. Bem, além de tudo, um guia. Sei que nunca esteve na Amazônia e sem ele, além de se perder, teria problemas com a língua local. Portanto, conheça o nosso mais novo amigo brasileiro. – disse Lestat despertando-me.
Os meus olhos já estavam voltados para ele desde que Lestat começara a falar e não desviaram do foco nem ao ouvir a nacionalidade do rapaz. Ele deslocou-se rápido para o centro da sala onde estávamos eu e monsieur Fontaine, esperando-o.
- Olá, meu nome é Vinicius – falou com um inglês básico o que me fez pensar nos possíveis problemas de comunicação que teríamos em frente - Prazer em conhecê-la.
Em seguida, estendeu a mão pra me cumprimentar. Antes de qualquer ação, olhei em volta, até chegar a Lestat com um sorriso de prazer só de pensar que os surpreenderia com minha atitude incomum. Por fim, apertei sua mão. Ele sorriu aliviado e eu correspondi.
- O prazer é todo meu, Vi... – o nome era exótico demais para que uma Alemã pronunciasse de primeira – Desculpe-me, sou Alemã e nunca tive a oportunidade de ouvir esse nome antes.
Lestat estava chocado com a minha gentileza, e eu adorava que estivesse assim.
- Não tem problema – disse ainda segurando minha mão – Terá tempo para aprender.
Ele parecia muito bom (se é que me entendem) para estar entre seres como nós. Será que ele sabia mesmo a verdade ou Lestat a escondera mais uma vez?
- Mademoiselle – disse Lestat tomando minha mão do rapaz – me comunicarei com você, digo, vocês, através do colar. Vocês irão de avião até...como se chama...
- Tocantins. – complementou Vinicius – É bem perto. De lá podemos ir a pé.
- Tem certeza? – tive de perguntar.
Depois da minha pergunta, o brasileiro sorriu maliciosamente e olhando-me falou:
- Posso te acompanhar, Foltz. Também tenho quatro patas.
Todos riram com o tipo de trocadilho. E eu me surpreendi por ele saber meu sobrenome tão depressa.
- Isso é o que veremos, Vinicius.
- Pronúncia perfeita, Claire. – falou sorrindo.
Percebi que quando ele me provocasse saberia exatamente como pronunciar o seu nome. Sem mais demoras, subi as escadas para os preparativos da viagem. Tínhamos de ir o quanto antes.

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- O que devo levar? – disse comigo mesma procurando coisas úteis além das roupas que Lestat me dera para a bagagem.
- Boa pergunta, Foltz.
- AH! – fui pega despreparada com a resposta inesperada do brasileiro.
Ele riu.
- Desculpe-me se te assustei – falou – não foi minha intenção.
- Acho que não tem problema, não há como morrer. – falei a verdade.
Ele se posicionou ao meu lado de frente a cama e de repente, tirou a camisa.
- Posso saber o que você está fazendo?
- Bem, eu não trouxe uma mala, preciso de alguma coisa para colocar meus pertences e é costume de onde venho usar a camisa nessas horas – explicou divertindo-se – mas se te incomoda, eu posso...
- Não, não! – parei por alguns segundos surpresa com meu tom histérico, quase desesperado – Não me parece justo interferir nas suas idéias culturais, por mais selvagens que pareçam.
Ele riu novamente e me...abraçou.
- Desculpe. É costume também abraçar – falou maliciosamente.
- Não precisa me mostrar mais alguns de seus atos culturais. Em pouco tempo poderei presenciá-los, não é?
Eu parecia bem divertida para ele. Sentia-me...bem. Bem diferente, é verdade. Mas sentia-me como uma certa Heidi, a qual pela primeira vez senti saudades. O espelho me refletia e eu podia ver ali a Heidi que não mais sou. Apesar da semelhança física, sei que não sou mais nada ou não posso ser mais do que a minha consciência deixar por fim.
[ Continua... ]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

IV Capítulo Wide Feeling - Por Claire Foltz - II

"Algo só acaba quando realmente deve acabar. Como dizem os humanos, na 'vida' todo fim é um novo começo."
Livro Claire Foltz - parte II
As luzes de Nova York refletiam no Atlântico. Promessa de uma chegada. Era noite quando a Estátua da Liberdade se aproximava, e eu então me transformei. Uma das coisas ruins da mesma é que você não pode evitar ficar em trapos quando se torna humana. Isso sim é um problema quando se pretende atravessar a Times Square, mas encontraria um jeito.
Caminhei para a praia sentindo o vento frio na pele molhada. Se houvesse alguém ali, estaria estranhando o meu prazer enquanto tentasse não bater o queixo ou congelar. A minha sensação favorita.
- Claire – fui pega de surpresa por uma voz familiar logo atrás de mim.
Virei e sem esforço reconheci a jovem que caminhava para perto.
Louise. – falei confusa.
Ela apenas sorriu, e veio ainda mais para perto através da escuridão, olhando para os lados, mas para seu agrado a praia estava vazia. A esposa de Lestat viera me recepcionar. O mais provável.
- Não preciso me explicar, não é mesmo? – sempre com o sorriso doce – basta ver a sua situação, que logo percebemos que você precisa de ajuda. Lestat providenciou tudo que precisará, siga-me.
Acompanhei a Senhora Fontaine até a parte mais obscura da praia. Como não poderia sair dali como estava, ela teve de encontrar para mim um bom trocador de roupas. Vesti os presentes de Lestat: um vestido branco que mais parecia roupa de fada, uma sandália alta de tiras e prata e um tipo de véu branco, além de um belíssimo colar.
- Acho que agora podemos ir, sim? – concordei – Ele está a sua espera.
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Depois de alguns minutos chegamos à cobertura na Times Square. Lestat apreciava o luxo e os bens (humanos) materiais. Louise abriu a porta, e eu dei de cara com uma reunião inesperada.
- Não se assuste, Claire. É bastante necessário que todos estejam aqui.
Pelo visto o que Lestat tinha para me dizer envolvia todos os tigres brancos que eu sabia da existência. Todos estavam lá, em torno de vinte pessoas na...festa. Faces conhecidas de uma memória distante com apenas um estranho no canto da sala que olhava para a rua até a minha chegada quase triunfal. Quem seria?
- Bem-vinda, mademoiselle. – disse Lestat num tom amigável.
- Merci, monsieur. – respondi em francês, tentando agradá-lo.
Ele riu divertindo-se.
- Bem minha querida, talvez o tal Shadow e a loba sejam, digamos, mas dor de cabeça do que você pode imaginar.
- Como ficou sabendo deles? – tanto tempo atrás, fatos dos quais queria me esquecer – Mas de qualquer forma, eu já...
- Não, mademoiselle. Ela está à solta. – falou Lestat me interrompendo, depois tomou um gole intenso do whisky desnecessariamente.
- Mas, não pode ser...
- O maior problema, é o que envolve todos nós. Acabei por descobrir que ela estava há um bom tempo com uma alcatéia na Amazônia – o estranho rapaz endireitou-se para prestar finalmente atenção – mas ela se deslocou para o nordeste a pouco tempo e depois voltou para a floresta.
“O fato de ela estar viva já é de preocupar. A raiva que ela provavelmente já tem por você, Claire, se unirá ao desejo de fazer valer a missão do amado, o qual você matou, ou seja, o único meio de destruição de uma espécie imortal como nós. Não gosto da distância, fico sem informações, precisamos estar lá. Portanto tenho um plano e preciso que o ouçam com atenção, ou, deixaremos de existir”.
[ Continua... ]