"O tempo é muito lento para os que esperam;
Muito rápido para os que têm medo;
Muito longo para os que lamentam;
Muito curto para os que festejam;
Mas, para os que amam, o tempo é eterno".
William Shakespeare.
“Eu estava tão perdida naqueles olhos, que mal notara o sorvete espatifado no chão.
- Desculpe, mademoiselle. – falou o rapaz quebrando o silêncio e levantando-se. – É uma lástima. Ficarei bem melhor se puder concertar isso. Aceite outro sorvete e minhas desculpas – disse beijando a minha mão, num gesto delicado da época.
Eu engoli e tentei pronunciar as palavras sem gaguejar.
- Aceito suas desculpas, senhor. Mas não precisa se preocupar quanto ao sorvete, eu...
- Faço questão. – falou interrompendo-me – Como se chama, mademoiselle?
- Heidi Schimtz – falei instantaneamente. Fui tão chamada de mademoiselle desde que chegara na França que já entendia que se tratava de mim.
- Prazer, senhorita Schimtz. – falou sempre educado – Sou Lestat Fontaine.
Nome e sobrenome francês, não tinha dúvida quanto a sua nacionalidade. Então, fomos ao balcão para que ele me recompensasse pela perda. Foi então quando notei que melara meu uniforme com o sorvete de morango, mas nada podia estragar o momento. Por alguns minutos trocamos informações e nos conhecemos melhor.
Nome e sobrenome francês, não tinha dúvida quanto a sua nacionalidade. Então, fomos ao balcão para que ele me recompensasse pela perda. Foi então quando notei que melara meu uniforme com o sorvete de morango, mas nada podia estragar o momento. Por alguns minutos trocamos informações e nos conhecemos melhor.
- Ouvi quando conversava em alemão com suas amigas. – falou respondendo a minha pergunta de ter acertado no idioma.
Eu sorri. Finalmente alguém me notara e se derá ao trabalho suficiente de me escutar. O sorvete abandonado entre meus dedos por vez derretia, mas finalmente chegou ao fim. Aconteceu em sincronia com os passos de Brigitte na nossa direção. Brigitte era uma das orientadoras do orfanato. Francesa naturalizada alemã, nossa acompanhante perfeita na França. De uma coisa tinha certeza: o meu diálogo com Lestat não a agradaria. Não mesmo. Se eu voltasse, tudo que conseguiria eram cinqüenta chibatadas. No mínimo.
- Heidi, venha comigo! – convidou Lestat sabendo de que nunca mais nos veríamos se eu partisse ali.Eu o olhei nos olhos. Olhei para Brigitte enfurecida. Tentei lembrar dos poucos bons momentos de minha vida que poderiam se igualar ao que eu estava vivendo. Não consegui e então, o beijei. Foi o meu ‘sim’ mais louco, mas também o mais sincero e o mais divertido. Brigitte passou do branco alemão pálido para o vermelho vivo. Eu comecei a ri de satisfação e Lestat, que adorou minha iniciativa, me puxou para o táxi mais próximo para que fugíssemos. Ele pagou em dobro ao taxista francês para que andasse mais depressa e através de todas as luzes vermelhas dos sinais. Foi desnecessário, Brigitte não tinha como nos seguir pelo trânsito.
Os táxis franceses da época tinham uma película que privava o motorista do que se passava no banco de trás. Usando desse artifício, ele começou a me beijar aos poucos. Então, passou a ser mais forte, e ele já estava em cima de mim descendo até os meus ombros e me puxando para mais perto.- Acho que vou ter que te emprestar uma roupa limpa – cochichou no meu ouvido sem parar.Eu então comecei a desabotoar a jaqueta dele, enquanto ele fazia o mesmo com o meu uniforme. O leve batom que pusera pela manhã em meus lábios já estava espalhado nos dele e eu tentava me apertar ainda mais a ele, mas minhas mãos suavam demais para que eu conseguisse. Nossas pernas estavam entrelaçadas e ele puxou a minha perna direita para que se encaixasse na sua cintura. Sua mão passava carinhosamente sobre mim, e a cada movimento uma louca sensação.
- Chegamos, mademoiselle. – falou Lestat ofegante me avisando que o táxi parou.Nos apressamos para recuperar a postura.
Penteei com os dedos meu cabelo revirado e abotoei sua jaqueta emprestada. Lestat saiu primeiro e foi logo abrir a porta para mim. Saí do veículo deixando lá a blusa com o escudo do orfanato, ainda ofegante.
Chegamos ao hotel onde ele estava e fomos logo em seguida jantar no restaurante do saguão, porque eu estava com fome. Eu pedi vinho. Álcool pela primeira vez. Ele alegava estar sem fome, só me assistia sorridente, encarar o spaghetti.”
Então, eu parei a história. Vinicius escutava tudo em absoluto silêncio, como ele iria encarar o que vinha pela frente?
- Por que parou? – perguntou ansioso.
Eu sorri sem graça e continuei:
- Onde eu estava hospedada ficava a poucos minutos do hotel onde estávamos. – falei continuando – Não que eu fosse encarar Brigitte naquela noite com três taças de vinho expostas na minha cara.
“Fomos ao elevador e ele continuou a cena do táxi. Mas agora não havia ninguém em sã consciência que o pararia, incluindo eu. Eu só queria que ele não parasse, e mesmo que fosse pecado, como afirmavam as orientadoras, eu iria feliz para o inferno só por o tê-lo. E então, aconteceu. Se Brigitte soubesse, sei que diria que não só perdi a virgindade, mas o juízo naquela noite. Eu estava por descobrir que perdi algo mais.
O que mais me choca agora, sabendo como tudo funciona, é como ele conseguiu sem que me matasse. Ter algo tão íntimo com uma humana, quando na verdade ela deveria ser seu jantar. Mas ele não fez nenhum joguinho. Ele mal sabia o que era, mal sabia se transformar e nunca gostava de tocar no passado. Fora o primeiro da espécie, não havia ninguém que o pudesse ajudar.
Na manhã seguinte, quase à tarde, acordei e me deparei sozinha na cama. Sentia-me estranha, diferente. Lestat caminhava de um lado pra outro de toalha visivelmente preocupado.
- O que houve, Lestat? – perguntei aflita tocando seu ombro e fazendo-o parar.
Pensei por um minuto e cheguei a uma doida conclusão.
- EU NÃO ESTOU GRÁVIDA, NÃO É? – falei histérica só de pensar na gravidade.
Brigitte e as demais nos privavam de qualquer informação básica, então eu supunha que ele saberia se eu estivesse mais do que mim mesma.
- Não sei! – respondeu calmamente, porém angustiado – Mal sei se você pode...Se eu posso...se podemos...
Não dei muito valor àquela frase.
- O que eu sou agora então? – falei histérica – FALE LESTAT! – disse segurando seu rosto entre os dedos para que ele olhasse em meus olhos.Ele pegou carinhosamente minhas mãos e as afagava antes de responder.
Eu olhava sua reação incompreensível.
- Heidi...Desculpe-me. – falou com pesar. – Eu não entendo, eu não sabia que conseguiria! Não sabia que aconteceria tudo isso sem que eu matasse você!
Só agora entendo aquelas palavras.
Sem mais explicações, ele pegou algumas malas que possuía no armário e colocou uns itens que ele achava necessário.
- Você vai me deixar? – perguntei chorosa – Vai me abandonar sem ao menos me explicar?
Ele me abraçou forte, alisava a minha cabeça e eu me derramei em lágrimas no seu ombro.
- Liebe Dich, Heidi. – falou com carinho “Eu te amo” em alemão. – Nunca se esqueça disso. Não vou jamais te abandonar, mas nós temos que partir. O quanto antes.
Uma promessa e um desafio. Mas em quem mais poderia confiar?
Sem mais perguntas, nos vestimos e fomos ao aeroporto da cidade. Lestat era naturalizado americano, então se eu fosse sua suposta esposa, poderia entrar nos Estados Unidos. Com o visto, partimos para o outro lado do globo. Sem cerimônias, nos casamos em Nova York. Pra que jamais me encontrassem, passei a me chamar Claire Foltz, nome inteiramente escolhido por Lestat, que agora era senhor Foltz. Se não me engano, Claire é francês e Foltz, alemão.
Com os documentos em mãos, fomos ao apartamento que ele possuía na cidade. Nenhum de nós falava uma palavra se quer, e o silêncio era tenso. Só tínhamos definitivamente um ao outro para aprender ou descobrir o que éramos. E tínhamos tempo. Se tinha uma coisa que sabíamos era que nunca teríamos o direito de morrer. Seríamos sempre imortais.”


