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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

VI Capítulo – Wide Feeling – Por Claire Foltz – IV.

“Quem tem mais culpa: o tentado ou o tentador?”
William Shakespeare

- Claire? – uma voz me chamou de volta a realidade.
- Oi, desculpa, estava um pouco longe, Vinicius – falei.
- Vinicius? – riu – Ele desceu com as bagagens e com os demais a pouco tempo.
- Lestat? – finalmente percebi quem era – O que faz aqui?
- Na minha casa? – riu ironicamente de novo - Enfim, Louise se encarregou de mostrar ao brasileiro onde está o conversível vermelho. Vou emprestá-lo a vocês, afinal, já foi seu um dia.
- Pode parar, Lestat! – falei em voz alta antes que ele continuasse – Lembro muito bem do que aconteceu.
- Então lembra que temos assuntos a tratar, não é Heidi? – Lestat falou tocando meu rosto.
- CLAIRE! – falei histérica – É irônico como desta vez você faz questão de que eu vá ao Brasil. Deve se lembrar que anos atrás fez de tudo para que eu não fosse – retruquei.
Ficamos em silêncio e Vinicius apareceu na porta.
- Desculpe atrapalhar, eu só...
- Já estou pronta. – falei ao perceber que ele estava sem jeito – Lestat fez questão dos últimos avisos. Só isso, Vinicius. Vamos?
Olhei pela última vez nos olhos profundos de Lestat e caminhei até a porta.
- Sei que está pronta, Claire. – falou Lestat segurando meu braço.
Apenas ouvi, não o olhei e continuei a caminhar. O que tivéssemos de resolver não poderia ser ali, daquele jeito. Pegamos o elevador que chegou sem demora.
- Desculpe-me Claire, mas eu ouvi a conversa. – Vinicius me surpreendeu com a declaração.
Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer, mas não fiquei chateada ou algo assim por ele ter o feito.
- Eu sei que nos conhecemos há literalmente pouco tempo – falou sem jeito – mas...
- O que está havendo? – perguntei para encorajá-lo.
- Me responda, por favor, quem é Lestat? – perguntou aflito.
Olhei constrangida para ele.
- Achei que você soubesse. – aproveitei e fiz a minha pergunta – Como está aqui sem nem ao menos conhecê-lo?
Ele fez uma careta para mim e sem demora captei a mensagem.
- OK, eu respondo primeiro. – o elevador chegou ao térreo e fomos até o carro – Ele é, digamos, o nosso criador. Foi o primeiro da nossa espécie.
Ele pareceu insatisfeito com a resposta.
- Mas, o que Lestat representa pra você? – fez uma nova pergunta.
Engoli a seco.
- Bem objetiva sua pergunta. – falei sem graça.
Antes de responder fui até o lado do motorista como de costume, enquanto ele colocava as malas atrás. Inesperadamente ele me deteve depressa.
- Essa é uma das poucas coisas que posso fazer por você. – falou gentilmente – Se me der o prazer.
Recuei e fui até o lado do passageiro. Ao sairmos da garagem vi como o dia estava normalmente nublado em Nova York.
- Acho que te devo uma explicação ainda – falei por fim.
- É verdade – ele riu – E te devo também uma resposta, não esqueci.
- Isso é bom. – falei com ironia – Vou tentar ser bem objetiva como a sua pergunta fora: Lestat é casado comigo.
Vi sua expressão de espanto e podia imaginar o que se passava por sua cabeça: Louise e a conversa no quarto.
- Uau, é muito mais do que eu esperava. – confessou.
Ao terminar a fala, parei para pensar. Eu fugira do passado muitas vezes, porque acreditava que o mesmo não adiantaria de nada, que só devia me interessar com o futuro. Fugi mais uma vez naquele quarto, com Lestat. Talvez fosse uma boa hora para voltar atrás, encarar e analisar bem os fatos.
- É melhor que eu conte do começo. – expliquei.
- Concordo – falou com ironia – Você não pode ser casada com ele. Fala sério.
Olhei para ele espantada. Não fazia sentido aquela afirmação se ele não me conhecia e muito menos Lestat.
- Por que tanta firmeza nessa frase? – perguntei curiosa.
- Primeiro as mademoiselles. – falou ironizando o francês de Lestat e lembrando-me de que tinha algo a concluir.
Engoli a saliva e estava disposta a lhe falar. Fitei o horizonte e mergulhei nas minhas recordações.

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- Eu fui a primeira a conhecer Lestat entre todos naquela sala. Antes mesmo que Louise. – esclareci - Como deve ter percebido, ele é francês, e eu, alemã. Quando o conheci me chamava Heidi Schimtz e era órfã. Desde sempre morei no Weibliche Waisenhaus Katja.
Ele riu da minha pronúncia e antes que perguntasse expliquei:
- Era o nome do orfanato para meninas onde morava na Alemanha e Katja era a diretora e fundadora do mesmo. “Naquele ano, eu e mais três meninas do infernato – ri lembrando-me como costumava chamar – completaríamos dezessete anos e uma das tradições centenárias do mesmo era levar as garotas que completassem tal idade para conhecer uma filial na França, como presente de aniversário”.
Antes que pudesse continuar, chegamos ao aeroporto. Descemos do carro e fizemos todo o ritual para viajar.
- Por que está tão tensa? – perguntou, atento a minha expressão.
- Anos sem vir a um desses – falei referindo-me ao aeroporto – e a última vez não me parece agradável agora. Vai entender ao longo da história – falei por fim.
Sem demoras e com todo o trabalho feito, só cabia-nos esperar. Talvez já estaríamos lá se fossemos a pé. Hipérbole.
- Então você foi para França? – retomou a conversa.
- Sim, todas nós. – respondi - Eu não estava animada, não havia nada de aventureiro na França aparentemente. Pra começar, fomos lavar pratos e forrar camas para que futuramente fossemos boas donas de casa. E depois, não sabíamos uma palavra que não fosse em Alemão.
“Agora percebo que as orientadoras se sustentavam nesse fato: ficaríamos caladas e longe dos garotos franceses mesmo sem as quatro paredes do orfanato por conta do idioma.
Se bem que, na prática, isso não funcionou comigo. Ele estava lá, naquela última tarde na França, na sorveteria Hubens, ocupando uma das mesas. Eu o fitava e ele correspondia, mas foi o convite em um alemão fluente que me fez sorrir e parar”.
[ Continua... ]

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